Educação


Titulação e Qualidade

GL Volpato - 21/04/13

Independente de o governo manter a retiradada exigência de titulação (Mestre ou Doutor) para contratação de professores na universidade federal, reflito um pouco sobre esse episódio. Entendo que os cargos e oportunidades devem ser ocupados pela competência, nada mais. Sei que não é a regra em nosso país e em muitos outros, mas é uma noção filosoficamente sustentável.
Quando atribuímos a competência à titulação, estamos imaginando que elas estejam inexoravelmente ligadas, mas isso não é necessariamente verdade. Será que todo doutor é melhor que todo mestre, por exemplo? Se a regra é verdadeira, então necessariamente os concursos devem ser vencidos pelos mais titulados, o que nem sempre ocorre. Mas numa disparidade tão grande, entre um recém-formado e um doutor ou pós-doutor, acredito que as chances do primeiro vencer sejam mínimas, se houver.
Mas há outra problemática que importa. O Brasil é um país continental, com grande disparidade econômica e cultural entre suas partes. No quesito ciência, salvo exceções, as regiões sul e sudeste se evidenciam na formação de doutores de bom nível e mesmo no impacto na ciência internacional na maioria das áreas. Muitos doutores formados em certas regiões podem preferir permanecer na região que lhes agradam, por diversos motivos: gosto cultural ou familiar, presença de dinheiro (por ex., Fapesp, demandas específicas do CNPq), possibilidade de fazer a diferença ou ser apenas “mais um” etc. Seja qual for o motivo, sabemos  que algumas regiões do Brasil têm dificuldade em atrair doutores de outras regiões, seja por questão de diferença cultural, de clima extremo, dificuldade de locomoção para outras partes do pais etc. Tenho ouvido muito esse tipo de reclamação nessas regiões (por ex., o indivíduo é nela contratado, mas sai no momento em que consegue emprego na região de sua preferência). É nesse contexto que uma maior abertura para contratações (sem exigência de pós-graduação) poderia auxiliar o desenvolvimento dessas regiões. Lembremos que até poucas décadas, as pessoas eram contratadas antes mesmo antes de serem Mestre (eu, por ex., fui contratado em 1981, meses antes de defender meu mestrado). E foi desse substrato que crescemos.
Lógico que hoje sobram mestres e doutores. Mas isso não exclui que eles sejam contratados. O problema é que a exigência de títulos pode estar bloqueando pessoas potencialmente promissoras, mas que nasceram uns anos depois! Não acho que o título, da forma como é obtido hoje em nosso país, signifique grandes diferenças qualitativas (veja, por ex., o cenário da defesa de tese, como coloco em meu “Pérolas da Redação Científica”, p. 32). Se os doutores são os melhores, vencerão todos os concursos, mas os demais tiveram a chance de experimentar essa competição. Se o mestre for melhor que o pós-doutor, terá condições de mostrar isso às bancas. Lógico que há concursos onde aparecem dezenas de candidatos e a titulação é um meio rápido e objetivo de reduzir a demanda... mas tenho dúvidas se é a mais justa.
Às vezes podemos perder a aquisição de um grande profissional porque ele seguiu uma vida aí fora sem fazer pós-graduação (por ex., na administração, na medicina, na odontologia, na engenharia etc.). O que eu acho que pode ser significativo, e que não está sendo resolvido, é a questão da transparência de alguns concursos. Isso é mais complicado. Para garantir impessoalidade na avaliação, se cai no extremo das avaliações numéricas. Mesmo que a banca perceba que o candidato não é lá aquelas coisas, fica difícil contrariar um currículo volumoso (mesmo que com publicações de bom nível conseguidas sabe lá como). Além disso, mesmo no período probatório é raro vermos pessoas sendo excluídas do sistema (ou as bancas dos concursos de contratação são fenomenais, ou o sistema de avaliação na universidade é benevolente). Seja como for, entendo que temos que dar espaço à qualidade, com ou sem títulos... ou melhor, deveríamos nos esmerar para que os títulos correspondessem à qualidade, pois então seria mais fácil os julgamentos (fulano é pós-doutor!!!, sicrano é doutor!! beltrano é mestre!). Na minha especialidade (redação científica) percebo que os desníveis de conhecimento entre orientadores, pós-doutores, doutores, mestres e graduados não é tão grande quanto se poderia imaginar. Enfim, insisto, na atualidade, vamos olhar mais para a qualidade e menos para os títulos.

5 comentários:

  1. Também acredito que o título não é sinônimo de qualidade, mas tenho fé, que a obrigação ou exigência do título de doutor, vai melhorar o ensino e a qualidade das pesquisas brasileiras. Todos temos que chegar nesse patamar, passar por avaliações, bancas... Para depois começar a ensinar.

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  2. No momento, acho que mais do que a exigência do título, temos que fazer o título corresponder a qualidade. Esse é o buraco que temos e, por isso, ter o título ainda não significa muita coisa. Mas vamos fazer isso mudar. Neste ano ainda coloco em prática um grande programa para formação de cientista, para completar o que a pós-graduação não está conseguindo. O apelo é: você é doutor? Quer virar cientista?

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  3. Caro Jorge Luiz, estou na educação há 30 anos, completos agora em 2013 e digo para você que muitas vezes sou surpreendida por não conseguir ensinar um ou outro assunto da matéria que leciono. Apesar dos patamares já alcançados, isso não fez de mim, e nem dos meus colegas doutores e pos doutores experts no ato de ensinar. O ensino- aprendizagem vai muito além de um título ou de um sofrimento avaliativo, pois ao passar por uma banca, quem já teve essa experiência, sabe que é um grande sofrimento...O que poderá melhorar o ensino na nosso país não é a titulação mas a qualificação do professor; enquanto qualquer um, com ou sem formação adequada puder entrar em uma sala de aula e se intitular educador, a educação no nosso país continuará na UTI.

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  4. Prezada Rosi quase minha xará, há muito o que se fazer em Educação nesse imenso e desigual Brasil. Há profissionais que só buscam o título para ganhar mais, assim que retornam do exterior se aposentam, e cadê a legislação que garanta o compromisso com a educação brasileira, de pelo menos prestar serviço por igual período financiado pelo suor do trabalhador? Na verdade, temos muito mais a ver além do título, o caráter.

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  5. Prezada Rosi quase minha xará, há muito o que se fazer em Educação nesse imenso e desigual Brasil. Há profissionais que só buscam o título para ganhar mais, assim que retornam do exterior se aposentam, e cadê a legislação que garanta o compromisso com a educação brasileira, de pelo menos prestar serviço por igual período financiado pelo suor do trabalhador? Na verdade, temos muito mais a ver além do título, o caráter.

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