sexta-feira, 31 de maio de 2013

O PROBLEMA DO ENSINO DA REDAÇÃO CIENTÍFICA NO BRASIL


Gilson Luiz Volpato


De onde eu parto

Em minhas andanças pelo ensino da redação científica no Brasil, tenho percorrido instituições de ensino, frequentemente as públicas, das mais pobres às mais ricas. Tenho falado desse tema nas instituições de alto reconhecimento nacional e internacional, até aquelas que se iniciam no processo da pesquisa científica. Tenho ido nas instituições das grandes capitais e também nas das cidades interioranas, muitas vezes a centenas de quilômetros de um grande centro, com acesso difícil. E considero alta minha frequência nessas visitas, quando ministro cursos ou palestras, pois chego a ter de 40 a 80 participações num ano, numa atividade mais intensa nos últimos 15 anos. Nessas participações, converso com alunos, orientadores, coordenadores de pós-graduação, pró-reitores e reitores. Com isso, quero enfatizar que minha amostragem sobre redação científica no Brasil não é pequena. Além disso, já corrigi e reescrevi, no passado, mais de 250 artigos, nas três áreas do conhecimento, na tentativa de propiciar a esses autores melhora qualitativa, pois os considero vítimas de um processo de ensino equivocado. O que coloco a seguir é um pouco dessa percepção, associado aos meus estudos de 27 anos sobre ciência, metodologia, publicação e redação científica. 

O que eu vejo

Por que uma maioria expressiva de alunos, futuros cientistas brasileiros, tem muita dificuldade para redigir o TCC, a dissertação, a tese ou mesmo o artigo científico? Apresento minhas hipóteses e, em seguida, minha crítica e sugestão sobre o ensino da redação científica no Brasil.

1) Os orientadores não estão ensinando - Ensinar um orientando a escrever um texto científico requer, primeiramente, conhecimento específico sobre redação científica. Depois, a vontade em ensinar. Não basta pedir para o orientando escrever e depois mexer no texto e publicar. É necessário construir junto com o aluno. Mas, para isso, o aluno deve ter passado pela tentativa de construir esse texto. Infelizmente, muitos não ensinam porque não sabem fazer. Com meus orientandos, geralmente o que faço é pedir que escrevam o artigo (ou outra forma que esteja fazendo). Sei que não estará bom, mas ele deve estar mergulhado no problema e a redação propicia isso, lhe incita questões. Começo a ler o texto e já no início percebo que está muito ruim, sem chance de ser corrigido... deve nascer de novo. Então, chamo o aluno para ficar ao meu lado enquanto eu escrevo o texto. Vou construindo o texto e expondo em voz alta o que passa pela minha cabeça (quase tudo!) enquanto redijo. Vou mostrando a ele meus acertos e meus erros, quando mantenho algo que escrevo ou quando mudo o que eu mesmo escrevi. Tudo deve ter uma justificativa. Desde a estratégia geral para a colocação das ideias até cada palavra escrita, cada ordem de ideias inserida nas frases e cada finalização de parágrafo, cada gráfico ou tabela, bem como cada inserção de literatura. Tudo deve ser explicado. Lógico que antes disso eles já assistiram aos meus cursos algumas vezes e leram alguns de meus livros. Quando o trabalho é submetido à publicação, geralmente retorna com crítica, e discutimos cada uma delas no espírito de que ou a crítica está correta e temos que fazer a correção, ou está errada e mostraremos isso ao revisor e ao editor. Com esse processo, os alunos geralmente começam a apresentar um texto melhor estruturado e escrito após a redação do segundo ou terceiro trabalho. Meu objetivo é que, ao concluírem o doutorado, tenham autonomia para redigirem um artigo que se possa criticar e fazer pequenas alterações, sem necessitar reescrever partes significativas. Infelizmente, há orientandos que acham que já sabem... e perdem a chance de aprender; mas felizmente há aqueles que sentem prazer em aprender e estão abertos a um novo olhar para seus próprios conceitos - estes crescem e eu atinjo minha meta. Ou seja, se o aluno quer aprender, esses procedimentos são suficientes.

2) O raciocínio lógico não foi exercitado - Uma das grandes falhas que dificulta o aprendizado da redação científica é que o raciocínio lógico não é exercitado ao longo do processo formal de ensino. Então, muitos alunos têm dificuldade para entender argumentações necessárias quando se escreve um texto científico. Têm também dificuldade de fazer analogias e mesmo generalizações, por falhas no ensino prévio que lhes passou erroneamente que o conhecimento científico é algo sólido, não interpretativo. Percebo que muitos têm dificuldade em descobrir quais são os argumentos dos autores para sustentarem suas conclusões, o que mostra uma falha na percepção da relação entre premissas e conclusões num argumento lógico. Infelizmente, o ensino na graduação geralmente não dá suporte para a construção e uso do conhecimento, se limitando demais na transmissão das informações, geralmente factuais. Dizem que X afeta Y, por meio de uma ação de X sobre Z e deste sobre Y; mas perdem a chance de mostrar aos alunos como isso foi descoberto e quais os requisitos lógicos subjacentes a esses efeitos (noção de interferência de uma variável sobre outra e o mecanismo pelo qual isso ocorre) - este é apenas um exemplo. Como redigir uma Introdução ou uma Discussão sem ter agilidade com a argumentação lógica?

3) Os conteúdos ensinados são errados - Infelizmente, tenho visto que muitos ensinam conceitos e práticas de redação científica completamente erradas. As tentativas de ensinar redação científica são válidas, mas não podem conter erros. Muitas vezes os erros decorrem da falta de vivência do orientador na ciência de bom nível (necessariamente a internacional). Como é possível ensinar essa prática se o próprio orientador não a pratica? Como um orientador pode treinar um aluno se ele mesmo não sabe fazer? Outro erro também encontramos quando o orientador imagina que para aquele nível de trabalho (por ex., um TCC ou uma Iniciação Científica) não cabem os preceitos da ciência internacional. Eu aceito que toda ciência desenvolvida deve ser de qualidade e, portanto, com vistas a um debate internacional. Nossos  alunos, sejam de IC, TCC ou outros níveis, devem ter o privilégio desse aprendizado; não podemos subestimar suas capacidades, nem igualá-las à nossa incompetência. Achar que no TCC ou na Iniciação Científica o aluno deve fazer pesquisa local, pressupõe a existência de ciência local, o que é epistemologicamente equivocado. Na realidade, isso ocorre porque o orientador não se acha competente a fazer Ciência, mas se mete a ensinar o que não domina. Já imaginaram uma pessoa inexperiente ensinando um indivíduo a pilotar um avião?

Onde eu chego

Já imaginaram professores ensinando coisas bizarras, como: a) a pressão atmosférica é causada pela lua; b) o coração dos seres humanos é dividido em 3 cavidades; 4) o comportamento humano é todo determinado por ação genética; 5) a hipotenusa de um triângulo retângulo é igual à raiz quadrada de qualquer um dos catetos; 6) anestésicos são importantes estimuladores do sistema nervoso; 7) o fator de impacto é um índice criado pela USP; etc. Ficaríamos chocados! Mas porque não ficamos tão chocados, e até indignados, quando vemos professores transmitindo conceitos errados sobre redação científica?

Minha ideia é que parte dessa falta de indignação vem da falta de uma referência clara sobre os conceitos presentes na redação científica. Muita gente acha que os norteadores da redação científica decorrem da especificidade da pesquisa. É comum dizerem "na minha área é assim" para questões lógicas do texto, que ultrapassam em muito detalhes técnicos. Lógico que as técnicas são diferentes. Por ex., um geólogo usa técnicas de coleta de dados que um educador pode não usar, e vice-versa. Mas o raciocínio dos dois é o mesmo. Partem de evidências para construírem o entendimento (explicação, compreensão) sobre determinado fenômeno. É nesse pano de fundo lógico que estão os norteadores do "fazer ciência" e que não são exclusivos de uma área... são gerais a todas! A partir das bases lógicas da ciência, o texto deve ser construído sem contradições. É neste sentido que eu digo que o ensino da redação científica tem norteadores gerais muito claros. O problema é que muitos cientistas ainda insistem em priorizar "costumes de área" ao invés de lógica da ciência. Isso ocorre até mesmo em revistas de bom nível internacional, tal é a força do costume em algumas áreas (áreas médica e de saúde são exemplos clássicos). Mas, costumo dizer que bons costumes são copiados... o que não é copiado devem ser os costumes problemáticos (que são os que se caracterizam numa área).

Mas aonde estariam as referências desses preceitos da redação científica? Provavelmente não estarão num grupinho isolado. É mais provável que estejam na ciência internacional, aquela em que vários países (culturas) participam e debatem ciência. Segundo defino (Volpato, 2011), uma revista científica internacional deve estar publicando artigos de autores de vários países (i.e., está sendo procurada por esses autores) e suas publicações estarem sendo citadas por autores de vários países (i.e., o conhecimento está sendo útil para cientistas de vários países). É esse um importante universo balizador sobre os conceitos em redação científica. Mas, como dito no parágrafo acima, não podemos ignorar a lógica e a filosofia da ciência.

Por que a lógica de um TCC tem que ser pior que a lógica de um artigo em revista internacional de bom nível? Só tenho uma explicação. Porque quem orientou o TCC não sabe fazer ciência e quem publicou numa revista internacional de boa qualidade sabe. Temos que olhar para este lapso educacional que estamos vivendo de forma intensa no Brasil. Pessoas não qualificadas estão ensinando redação científica. E o pior... a pressão por publicação de qualidade tem incluído nas grades curriculares o ensino da redação científica. E mais, a simples orientação de um aluno já é parte do processo de ensino da redação científica.

Muitos anos atrás apresentei para dirigentes de minha instituição esta preocupação pelo fato de pessoas inexperientes cientificamente estarem ensinando alunos de graduação na arte de fazer ciência, o que desdobra na redação científica. Basta ser contratado e já pode orientar alunos, como se os alunos fossem uma massa amorfa para os ensaios-e-erros do orientador. Por isso há tantas pérolas espalhadas na área de redação científica (Volpato, 2010). Sabe o que virou meu ofício? Foi distribuído para todos os departamentos... e nunca mais se ouviu falar disso. Embora eu possa assumir que minhas preocupações possam estar completamente erradas, posso também pensar que dei ao culpado o papel de juiz de sua própria causa.

Da mesma forma, recentemente relatei (link) que aprendi a escrever errado para pedir dinheiro, e certo para publicar em boas revistas internacionais. Com tudo isso chego à constatação de que estamos doentes, mas com diagnóstico errado. Acham que o Brasil precisa apenas de visibilidade e que esta virá por decreto presidencial. Acham que fazemos ciência excelente e que nosso reconhecimento não vem por pura discriminação. Acham que somos gênios incompreendidos. Talvez sejamos, mas certamente só teremos reconhecimento científico internacional o dia em que nossa qualidade científica angariar esse reconhecimento. E qualidade científica requer conteúdo inquestionável e apresentação de excelência (link).

O que proponho

A proposta é simples: estude redação científica, atentando-se para possíveis equívocos nos vícios de sua especialidade. Aprenda porque os textos são diferentes em função da qualidade da revista. Entenda porque hoje não basta publicar na revista historicamente conceituada em sua área. Saiba porque a estrutura de um texto científico é uma construção criativa, guiada exclusivamente pela lógica da ciência, motivo que permite as grandes revistas inovarem na apresentação de seus artigos. Descubra quanta besteira é ensinada no quesito redação científica em nosso país. Ajude a dar um breque nisso, pois alunos estão sendo iludidos por pessoas que fazem o suficiente para garantirem o emprego.

Inicio até o final deste ano um programa estruturado para formação de professores de redação científica. Será ensinado a esses professores interessados o Método Lógico, indicando sua aplicação para qualquer área da ciência empírica (diga-se, ciência que se baseia em evidências, qualitativas ou quantitativas, para construir conhecimento). Minha meta é conseguir formar ao menos um professor de redação científica de bom nível em cada campus das universidades públicas do Brasil. Quanto às particulares, esperarei os reitores me convencerem que suas empresas querem investir em educação e ciência de alto nível.

Paralelo a isso, concluo neste ano o Ambiente para Formação de Cientistas (AmForCi), que será uma iniciativa de um grande grupo de pessoas que objetivam, com esse ambiente, transformar uma grande massa de nossos doutores em cientistas, bem como de nossos pós-graduandos e orientadores.

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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Em tempo, governo volta atrás e mantém exigência de título de doutor para contratação de professores nas universidades federais. Tira a exigência apenas para regiões com "graves carências". Na essência, não muda nada. Deveria exigir, no entanto, melhor qualidade dos professores, bancas mais transparentes e competentes, salários mais dignos para atrair bons talentos, melhor plano de carreira, entre outras coisas. Com isso facilitaria que melhores profissionais ficassem na universidade e que os melhores fossem contratados.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Solidariedade não se aprende na Universidade

Caros colegas, este vídeo é fantástico. Os mais céticos podem achar que é uma forma de a Rússia se autopromover. Mas não vejo assim, prefiro acreditar que seja genuíno. Mostra simplesmente pessoas ajudando pessoas, de forma desinteressada... pelo simples motivo de ajudar alguém. Lógico que há uma câmera "observando", mas é possível que essa medida de adicionar câmeras nos carros facilite para que as pessoas mudem seu comportamento, até um momento em que podem se tornar costumes totalmente espontâneos, incorporados na rotina.

Em 2000 escrevi a seguinte frase numa edição de um de meus livros:

"Ou o século XXI é dedicado aos valores humanos, morais e éticos... ou de nada valeram os avanços tecnológicos conquistados até aqui".

Infelizmente, o ensino de ciência no Brasil não caminha nesse sentido. Os trabalhos em equipe assumiram outro formato... aparentemente aquele da formação de quadrilha (veja, por ex., as autorias fraudulentas em equipes de pesquisa). Mas isso pode mudar. Vejo que muita gente se emociona com o vídeo que destaquei. Isso é sinal que nem tudo está perdido... ainda há sentimento de compaixão, de amor ao próximo, de vontade de fazer o que deve ser feito. Mas esta chama poderá aumentar, ou se apagar gradativamente. O que podemos fazer para não deixá-la morrer? O primeiro passo talvez seja praticarmos o que nos emociona neste vídeo. Mas precisamos mais que isso; precisamos estimular pessoas a acreditarem e transformarem o mundo em algo melhor. Menos salami science... mais slow science já é um bom começo! Faça o que tem que ser feito. Na ciência, descubra coisas interessantes, com honestidade e audácia, publicando-as em locais de qualidade... mas sem correria, pelo simples prazer de fazer o que deve ser feito. Tenha certeza que a alegria e a leveza de saber que fez o que tinha que ser feito é insuperável!

sábado, 11 de maio de 2013

Vejam este texto interessante, de Mayra Matuck, sobre o Contexto Atual da Formação no Brasil. Trata especificamente da relação entre a formação de nossos alunos e o mercado de trabalho, focado na área de Ciências Exatas. Mostra a demanda futura do Brasil e o desafio que temos a enfrentar.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Durante a XX Semana da Biologia, FC, Unesp, Bauru, em 22/04/13, falei sobre o futuro da publicação no Brasil. Num breve intervalo, dei a entrevista que está na seção vídeos, onde comentei sobre a principal causa de negação dos artigos científicos e a importância das revistas de divulgação. Coloco a publicação em periódico de bom nível como uma forma de facilitar para que revistas de divulgação encontrem nossos trabalhos. Link aqui.